LOADING

Quando vale a pena abandonar o barco corporativo?

Quando vale a pena abandonar o barco corporativo?

por Audrey Bertho junho 11, 2013

Ao longo da vida, vários “barcos” são adquiridos, conduzidos ou confiados a nós. Esses barcos vêm em forma de nossas vocações, profissões, carreiras e empregos (que sim, são coisas bem diferentes), nossos relacionamentos e compromissos (também distintos), nossas moradias, nossos grupos sociais e etc. O mais sutil de cada um desses barcos é precisamente o mais consistente, mais vivo em nossa essência e, portanto, o mais raro de se realmente “abandonar”. Por outro lado, para nos mantermos fiéis a esse barco mais sútil, não raro precisamos redefinir, renegociar ou mesmo abdicar e substituir os outros.

Tomemos como exemplo um médico (profissão), com princípios idealistas, interessado em ajudar os outros, salvar vidas (vocação), com 20 anos de experiência na área de oncologia, boa formação e currículo (carreira) e que há cinco anos está trabalhando no hospital “X”, em São Paulo (emprego). Então, em determinado momento, o emprego desse médico começa a engessar sua carreira, seja por monotonia, salário, ambiente, o que for: ele tem pouco espaço para crescer, utilizar novos métodos de tratamento, ou ainda o emprego entra em desacordo com sua vocação: o hospital começa a mecanizar o processo da saúde e minar a empatia que havia entre os médicos e pacientes.

Solte a corda. É hora de abandonar o barco e buscar outro.

Um cenário como esse provavelmente abalaria esse médico de alguma forma, afetando seu bem estar emocional, psíquico, ou mesmo físico, uma vez que haveria um desacordo entre sua posição atual e sua expectativa profissional. Ir ao emprego, para ele, certamente seria um jogo de paciência: um respirar fundo enquanto sentia sua vida profissional tornando-se cada dia mais enfadonha e estressante. Para este médico, proteger o barco de sua vocação e carreira significaria fazer algumas mudanças em seu emprego atual. Significaria tentar ajustar seu emprego às suas necessidades ou ainda abandonar o barco: abandonar o emprego atual e buscar fora outro emprego que estivesse mais condizente com aquilo que procura.

O que é importante entender aqui é que apesar do peso da expressão “abandonar o barco” e da covardia aparente nela expressa, o “abandonar o barco” não necessariamente representa abandonar o tudo que temos, mas tão somente um de tantos barcos que nos foram confiados. De fato, significaria neste exemplo, abrir mão de um barco mais efêmero para proteger todos os outros barcos mais duradouros ou essenciais.

Abandonar o barco não é nenhuma fraqueza quando esse é o melhor caminho para “salvarmos” ou preservarmos a saúde de todos os outros barcos essenciais. Muito pelo contrário, é uma atitude de coragem e que após enfrentados todos os “dragões” da mudança, uma vez que toda mudança tem lá seus desafios, irá nos conduzir a algo melhor, mais bem estruturado, mais alinhado com aquilo que somos e que queremos pra nós. Abandonar o barco não quer dizer ficar sem barco nenhum, desamparado e sujeito á instabilidade das águas do mar. Abandonar o barco pode apenas significar buscar outro novo, do jeito que queremos e tendo mais liberdade para conduzí-lo e não apenas sermos levados por ele para qualquer direção.

O momento certo de abandonar o barco é quando percebemos que estamos no barco errado, quando estamos ali sem estar de fato, quando fisicamente temos um emprego para o qual nos dirigimos diariamente, que paga nossas contas, mas que tornou-se mecânico: não temos motivação, perspectiva ou sequer vontade para e de estar ali. Quando o único elo a nos manter ali é o passado de um emprego – e que também pode ser uma carreira ou profissão – que teve lá seus bons momentos ou o medo de que uma mudança provoque algo pior. Mas afinal, que espécie de movimento poderia ser pior do que a estagnação ou a apatia?

O relógio está correndo e você pode estar desperdiçando seu tempo no barco errado. Por isso, entenda que:

  • Desânimo e cansaço frequentes são reguladores de que algo não vai bem conosco. Procure entender as origens dessas sensações e quanto são costumeiras nas vezes em que você pensa sobre ou está a caminho do trabalho;
  • Identifique qual o barco que tem deixado você desapontado: às vezes você pensa que o que está errado é sobre sua profissão ou carreira, e de repente é apenas seu emprego. Outras vezes reestruturar seu emprego ou começar outro novo não adianta e é preciso modificar sua carreira e profissão para alinhá-las com aquilo que você realmente gosta e sabe fazer;
  • Busque ao máximo qual sua vocação e tente se alinhar a ela: qual seu ideal com sua profissão e qual o meio que você mais tem afinidade para trabalhá-la;
  • Às vezes você não precisa abandonar o barco, mas apenas mudá-lo de direção. Se seu problema é apenas seu emprego e o conflito dele envolve muito mais sua carreira que seus princípios, então talvez você deva começar tentando conversar com seu chefe. Explique sobre seu descontentamento com suas funções ou salário e veja se há espaço para modificações dentro da empresa;
  • Caso seu chefe mostre disposição para as melhorarias que você ambiciona, não deixe de conversar também sobre prazos para que elas sejam implementadas. É importante deixar claras as suas metas e quão importantes elas são para você;
  • Mas… Prepare-se para a indiferença: às vezes seu chefe pode te deixar um tempão cozinhando em banho-maria e não cumprir o combinado. Por isso, prepare-se também para situações desse tipo e tenha um plano de ação caso isso ocorra.
  • Lembre-se: você não precisa sair de um relacionamento sem ao menos tentar conversar com seu parceiro. Igualmente, você também não precisa ficar esperando melhorias em um relacionamento onde, notadamente, seu parceiro não está te respeitando ou totalmente sintonizado a você e seus objetivos.
  • Não tenha medo: apegue-se ao barco mais real e sutil e perceba que os outros barcos são apenas motores para te conduzirem até aquele que realmente você deseja chegar.

Não espere demais! Se identificar os “sintomas” de um emprego ou profissão que não tem a ver com suas buscas mais profundas, não tenha medo: deixe o barco! Talvez você tenha sim que enfrentar algumas tempestades materiais e emocionais pelo caminho. Mas caminhos são assim mesmo: eles têm lá seus sufocos, mas também as suas glórias. Duro mesmo é evitar a ação e ficar sem nada: sem choro, mas também sem riso, sem perspectiva do novo e da boa surpresa , sem movimento pra, ao menos tentar, algo melhor para si.

Deixe seu comentário
Compartilhar
Newsletter-Image

Assine a nossa Newsletter

Inscritos recebem conteúdo exclusivo

Artigos Relacionados