Empreendedora deve buscar reconhecimento por mérito e não “guerras”

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JAB entrevista o psicólogo Bruno Carneiro de Oliveira sobre o perfil da mulher empreendedora. Para ele, a busca por reconhecimento do trabalho da mulher não deve ser alcançado por meio de guerras por espaço, mas sim por percepção natural de sua competência

Desejos de independência e liberdade têm motivado cada vez mais mulheres a não apenas trabalhar fora, mas também buscarem cargos mais elevados dentro da empresa, quando não a elas mesmas abrirem e gerenciarem um empreendimento. Aqui no país, por exemplo, o número de mulheres e homens empreendedores iniciais registrado em 2012 já é quase equiparável, segundo demonstrou uma pesquisa do GEM Brasil.

É claro que uma vez que a sociedade (como a conhecemos) confere o status de bem sucedido ao cidadão que detém o capital e, através dele, é capaz de promover o próprio progresso e do grupo onde está inserido, o desejo de gerenciar a própria empresa e, portanto, ser bem sucedido é algo que tem seduzido cada vez mais pessoas. E com uma participação mais ativa na economia e sociedade como um todo, a mulher agora pode e também ambiciona o sucesso.

A transformação social e de sua própria realidade, a busca incessante por independência profissional e a intenção de participar do mundo de forma ativa: tudo isso são desafios que um empreendedor encontra pelo caminho. Para a mulher, isso tudo acontece paralelamente à gestão do trabalho no lar e as relações domésticas (dupla jornada), além da quebra de alguns paradigmas que ainda restam na sociedade e em si próprias sobre sua competência para chegar ao sucesso num campo que num passado recente não lhe cabia estar.

E é para falar sobre a mulher empreendedora e seus desafios, que a JAB Consultoria entrevista o psicólogo Bruno Carneiro de Oliveira, da Organização Social de Saúde Santa Marcelina e que é também é pós-graduado em Gestão de Pessoas pela Universidade Cruzeiro do Sul. Na entrevista, Oliveira explica sobre as mudanças que levaram a mulher a quebrar o paradigma de sexo frágil e buscar transformação para si e sociedade através do empreendedorismo. Também explica sobre as formas mais saudáveis da empreendedora enfrentar as barreiras até que seu trabalho seja reconhecido, entre elas a necessidade de se fazer notada por mérito e não provocando guerras por espaço. Além disso, ele fala ainda sobre o que a mulher pode acrescentar ao mundo dos negócios.

Muita coisa mudou entre as rotinas das mulheres de duas, três gerações atrás em relação à mulher atual. São nítidos os reflexos comportamentais dessa mudança como, por exemplo, no crescimento da atuação da mulher no mercado de trabalho e, inclusive, com ela se arriscando mais a empreender. Bruno, você acha que a percepção da mulher moderna sobre si mesma e seu papel social é muito diferente da visão que nossas avós e bisavós tinham sobre si próprias? Que mudanças na interpretação da mulher sobre seu próprio papel mudou de algumas gerações pra cá?

Sim, as mudanças são nítidas e não param de acontecer a cada dia. No tempo das nossas avós e bisavós, as mulheres eram criadas e educadas para darem conta de aspectos restritos à família, ao lar e cuidado dos filhos, eram basicamente “donas de casa” e submissas ao companheiro / esposo. Trabalhar fora e ser independente era motivo de desconfiança e mal visto pela sociedade. Mulher bem sucedida era aquela que sabia cozinhar muito bem, que dava conta das tarefas e cuidados da casa, tinha muitos filhos e etc. Essas mulheres eram, em sua maioria, pouco instruídas e com baixo grau de escolaridade.

Hoje o perfil é completamente diferente, [as bem sucedidas] são mulheres que ao longo dos anos, e principalmente após a segunda metade do séc XX, passaram a buscar maior independência. Para tanto, procuraram estudar e melhorar seu grau de instrução, buscaram qualificação, passaram a ter menos filhos, assumiram o desafio de terem jornada dupla (casa, filhos e marido X trabalho), superaram o olhar machista de uma sociedade que as consideravam como o sexo frágil. O olhar sobre si assumiu um posicionamento equiparado ao do homem; mais forte, reivindicante, batalhadora e que derrubou as paredes do “lar tradicional” e foi para a rua buscar realizações pessoais, conquistas maiores e independência. Tudo isso possibilitou o aumento da participação da mulher na sociedade de forma geral e em todos os níveis.

Cozinhar, lavar louça, roupa, cuidar desse monte de filhos… Quer saber? Cansei!

Uma pesquisa do GEM Brasil feita no ano passado, 2012, aponta que 49,6% dos empreendedores iniciais são mulheres. Ou seja, a atuação feminina no empreendedorismo já está quase equiparada à masculina no Brasil. Nas regiões Nordeste e Sul do país, aliás, as mulheres são maioria iniciando no empreendedorismo (51,8%). Sobre esse dado e, claro, numa análise psicológica, a que você atribui essa maior participação feminina e interesse da mulher por ter seu próprio negócio? O que elas estão buscando, afinal?

Ser dono do próprio negócio tem muitas vantagens e o que está por trás de todas elas é algo inerente a uma condição de existência dos seres humanos: a independência. O homem, ao longo de sua história, promoveu mudanças e revoluções muito significativas no mundo, onde o que estava em jogo eram a liberdade e independência. Hoje, para a mulher não é diferente. Como qualquer ser humano, [a mulher] também está em busca de liberdade e independência e, dentro desse aspecto, nada como ser empreendedora e dona do próprio negócio. Liberdade e independência promovem nas pessoas muitas possibilidades como, por exemplo, assumirem novos e maiores desafios. No caso das mulheres, e concomitante a “sede” de cresceram cada vez mais, reforça seu novo papel na sociedade e quebra o paradigma de um contexto machista e da mulher submissa.

Obviamente a psicologia tem várias vertentes de estudo sobre as naturezas feminina e masculina. Mas, resumidamente, que traços você poderia destacar que diferenciam a polaridade feminina da masculina e que podem ser mais vantajosas ou mais danosas quando empregadas na forma de cada um administrar uma empresa?

Falando especificamente sob a ótica da administração de um negócio, a mulher se diferencia do homem de forma bastante singular, geralmente são mulheres bastante dedicadas e focadas em seus objetivos, administram bem o tempo e consideram seu negócio como uma extensão de todos os outros aspectos de sua vida. Porém, [em] condições que envolvam conflitos e decisões entre aspectos emocionais e racionais, tendem a ser mais duras e racionais (até mais que homens), mas não porque isso faz parte de sua natureza, mas sim como uma forma de defesa e instrumento de conquista de seu espaço e objetivo, o que vai de encontro com a forma como a mulher sempre se portou no mundo: frágil, carente, de labilidade emocional flutuante, submissa e dependente. Como esses são aspectos de risco ao negócio e não promovem a conquista do que elas estão em busca (liberdade e independência) abrem mão do “instinto feminino” (laços fortes e vínculos duradouros) e passam a agir de forma extremamente racional, delimitando bem o espaço e aspectos pessoais em relação às condições e ambiente de trabalho. E aí eu diria que o quanto isso é vantajoso ou não para o negócio, dependeria muito do tipo de negócio que está em jogo.

Existem várias definições do que é empreender, mas eu vou citar apenas duas aqui. Uma delas é de Michael Gerber, que é uma referência nos EUA em administração, que diz que oempreendedor é a personalidade criativa, sempre lidando melhor com o desconhecido, transformando possibilidades em probabilidades, caos em harmonia”. A outra é do economista e filósofo escocês Adam Smith que faz uma referência aos empreendedores, como “pessoas que reagem às alterações das economias, sendo agentes econômicos que transformam a procura em oferta”. Dentro dessas duas definições, como você acha que a mulher empreendedora reage e pode contribuir em cada uma delas?

Em ambas as definições a transformação é a base de sustentação e ponto de partida para o empreendedorismo e é exatamente este aspecto que abre espaço para o perfil da mulher empreendedora, que necessariamente exige da mesma uma forma de atuação muito dinâmica e de sensibilidade aguçada ao contexto geral do empreendedorismo. A mulher empreendedora só se torna uma por ter claro em si o grande poder de transformação de sua realidade, da sociedade e das pessoas que compõem o ambiente onde ela promove seu negócio.

Bem melhor agora!

Assim como existem homens mais propensos ao empreendedorismo que outros parceiros de mesmo sexo, que não tem habilidades ou interesses por empreender, isso também existe no sexo feminino, né? Se fosse para fazer um mapeamento das características psicológicas de uma mulher com perfil empreendedor, como você a descreveria? Que traços de personalidade são mais recorrentes na mulher empreendedora do que na mulher que não tem nenhum interesse por empreender?

Eu acredito que o que diferencia a mulher empreendedora da que não é, são justamente os aspectos que envolvem sua satisfação pessoal, busca por maiores e melhores conquistas profissionais, coragem para seguir em frente sem abrir mão de seu objetivo maior (liberdade e independência). A mulher empreendedora é aquela que corre e assume riscos, mas não deixa de se planejar. É aquela que é criativa, dinâmica, de iniciativa, que é capaz de abrir mão, no momento certo, e sabe separar os aspectos emocionais e racionais de uma relação, adéqua-se a duplas jornadas de trabalho (casa, filhos, esposo X negócio próprio). Ou seja, é aquela que quer ser e estar no mundo de forma participativa e transformadora, inclusive de sua própria realidade.

Nas últimas semanas houve uma discussão sobre um livro publicado recentemente nos EUA, de autoria de Sheryl Sandberg, que não é empreendedora, mas sim diretora operacional do Facebook. O livro se chama ‘Faça Acontecer: Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar ‘, e num trecho dele a autora fala sobre barreiras internas que a mulher sofre e a necessidade de se livrar delas para ganhar poder. Entre essas barreiras internas ela cita a falta de autoconfiança, e a tendência a não tomar a frente das questões abaixando a voz e a cabeça. Você concorda com isso?

Não, não concordo. A forma como o embate citado é colocado aproxima-se de uma conquista de espaço e liderança através da guerra. E em uma guerra existem mortos e feridos, ganhadores e perdedores.

Para que a mulher conquiste cada vez mais o espaço que pretende ocupar ela não precisa ir para o confronto direto, medindo forças com quem quer que seja. Ela precisa sim mostrar quem ela realmente é e suas potencialidades através de muito esforço, trabalho, criatividade e inovações, sendo que o reconhecimento de seu trabalho e a valorização do mesmo venha a ocorrer de forma natural, como a própria história do percurso da mulher ao longo dos séculos vem mostrando e como ocorre com qualquer profissional e / ou empreendedor, seja homem ou mulher.

E existem barreiras a serem enfrentadas pela mulher que empreende? Existem “barreiras externas”, como sexismo e discriminação e “barreiras internas”, seja do status quo ou próprias da mulher, e que precisam ser superadas para ela empreender?

Sim, existem muitas barreiras que aos poucos estão cada vez menores. A história mostra isso, mas, como em qualquer aspecto da vida humana, não existe conquistas sem luta. Portanto elas sempre existirão, hoje sobre a “fantasia” do sexismo, discriminação, status quo e etc; amanhã estarão presentes sobre outros aspectos da existência de nossa sociedade. Faz parte do jogo. E à medida que são superadas dão um sabor mais apurado a cada conquista alcançada.

Você acha que a administração tem algo a ganhar com o perfil da mulher empreendedora?

Sim, acredito. A forma como as mulheres estão se colocando no mundo empreendedor é revolucionário e digno da construção de uma nova história no mundo dos negócios, pois para que pudessem ocupar o espaço que têm hoje precisaram quebrar paradigmas, superar adversidades e se reinventarem, para isso lançaram mão de um modo de fazer inovador e de estilo próprio, construíram algo novo e competitivo que vem dando muito certo e que serve de exemplo, inclusive para os homens.

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